A mídia, meus amigos, minha família, você e eu e, pra ser bem direta
no assunto, o povo anda fazendo um julgamento um pouco estranho sobre nós
mesmos, o povo. Ouço frequentemente
essa referência aos brasileiros em terceira pessoa.
Em forma de se esquivar da culpa, é claro. Uma coisa é falar
da menina mãe de dois filhos de pais diferentes e colocá-la dentro desse
recipiente social que é o povo. Fazer referência ao trabalhador que ganha um
salário mínimo e não consegue administrar muito bem sua pouca grana na
tentativa de ter bens materiais melhores, fica devendo, faz empréstimos e o povo
nunca sai do buraco.
O povo é muito
burro e ignorante. Essas pessoas que alimentam a audiência dos programas de
domingo. Esses jovens que andam na rua com o som muito alto, crianças sem
futuro. Coitados, às vezes é melhor que o povo ande na sua ignorância mesmo.
O bom mesmo é ter essa vida de classe que pensa que é média.
É fazer essa divisão imaginária: aquele que sofre os problemas do Brasil é o
povo, eu to de boas, sou bem diferente deles.
Eu gosto bastante dessa palavra: povo, e gosto mais ainda quando nos tornamos conscientes de que
estamos representados nela. O povo está no popular e todos estamos nesse
popular, para isso basta, por exemplo, nascer no Brasil, sofrer com o calor, com os temporais no final da tarde e se preocupar com o mosquito da dengue, essas coisas que afetam todo mundo. Às vezes tratamos dos problemas sociais como se fossem problemas dos outros, mas não são.
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