sábado, 15 de fevereiro de 2014

Eu, do povo

A mídia, meus amigos, minha família, você e eu e, pra ser bem direta no assunto, o povo anda fazendo um julgamento um pouco estranho sobre nós mesmos, o povo. Ouço frequentemente essa referência aos brasileiros em terceira pessoa.

Em forma de se esquivar da culpa, é claro. Uma coisa é falar da menina mãe de dois filhos de pais diferentes e colocá-la dentro desse recipiente social que é o povo. Fazer referência ao trabalhador que ganha um salário mínimo e não consegue administrar muito bem sua pouca grana na tentativa de ter bens materiais melhores, fica devendo, faz empréstimos e o povo nunca sai do buraco.

O povo é muito burro e ignorante. Essas pessoas que alimentam a audiência dos programas de domingo. Esses jovens que andam na rua com o som muito alto, crianças sem futuro. Coitados, às vezes é melhor que o povo ande na sua ignorância mesmo.

O bom mesmo é ter essa vida de classe que pensa que é média. É fazer essa divisão imaginária: aquele que sofre os problemas do Brasil é o povo, eu to de boas, sou bem diferente deles.

Eu gosto bastante dessa palavra: povo, e gosto mais ainda quando nos tornamos conscientes de que estamos representados nela. O povo está no popular e todos estamos nesse popular, para isso basta, por exemplo, nascer no Brasil, sofrer com o calor, com os temporais no final da tarde e se preocupar com o mosquito da dengue, essas coisas que afetam todo mundo. Às vezes tratamos dos problemas sociais como se fossem problemas dos outros, mas não são.

 Acho que tenho a sorte de ser de uma família muito comum do Brasil que se assemelha mais com as dificuldades do povo e não com as dificuldades desse outro segmento que se auto divide e não se nomeia,  e responde por alguém que não seja o coletivo. E que de vez em quando aparece dando o diagnóstico dos nossos problemas, como se fosse um doutor. Daqueles só com a graduação mesmo. E nos ofende.

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