domingo, 16 de junho de 2024

Eu vi uma senhora sentada, eu vi o tempo

 

Na última sexta-feira, no finalzinho da tarde, quando o sol está se pondo e o ar começa a ficar mais fresco, quase gelado, eu passava de carro numa rua qualquer e vi uma senhora sentada no seu portão descascando uma tangerina. Não é preciso de mais nada.

Depois de uma semana corrida e exaustiva, de muito trabalho no trabalho e de trabalho em casa, tudo o que eu queria era me guardar na toca, pausar a vida, não pensar em problemas. Esquecer do mundo e ser esquecida por ele. No entanto, eu sabia que não seria assim, porque quando se trata de viver isso é impossível, ainda bem. E apesar de toda a confusão que se instalara nos meus dias, aquela senhora estava descascando uma tangerina, sentada no seu portão, vendo o movimento da rua.

Veja bem, essa senhora conseguiu pausar a vida. De repente, ela tenha problemas gravíssimos para resolver, sentou lá para descansar, ou para pensar melhor. Vê-la foi para mim como a canção do Caetano “eu vi o menino correndo/ eu vi o tempo”.

Eu poderia dizer: “que inveja, queria eu sentar no meu portãozinho numa hora dessas”, porém a grande graça é que percebi que sim, eu posso fazer o mesmo. O finalzinho de tarde e as tangerinas estão aí para todos. O conflito é sempre mais interno do que no plano real, afinal que chatice é essa de ficar se privando das vontades, das pausas, do sossego. Uma coisa é ter prazos e deveres, outra coisa é se acostumar com o sentimento de urgência - um perigo e um pecado com a vida.

Eu gosto demais desses momentos muito íntimos que nem sei se alguém vai entender, mas que me levam a um sentimento de contemplação e por alguns instantes de entendimento da vida. Depois disso, troquei a urgência e o afobamento pelo sentimento de que bom que estou aqui e posso contribuir com o bem-estar daqueles que sempre estão comigo. <3  




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