Os dias têm sido esquisitos, muito
esquisitos. Nós, pessoas dos anos 90, estamos virando os pais dos nossos pais.
Decidindo quem vai ao mercado, perguntando se lavou a mão ou se não é melhor
trocar de roupa após convívio social mínimo. Não se sabe quanto tempo isso irá
durar, e quando acabar como será o mundo.
Há quem diga que o mundo será diferente
para melhor, pessoas valorizando o que realmente importa, vendo o consumo de
outra forma e fortalecendo as relações humanas. Outras pessoas dizem que será
quase como um pós apocalipse: a crise econômica, a corrida para a recuperação
com o auxílio da dobradinha neoliberal: deus-me-livre/salve-se quem puder. Diante
dessas incertas possibilidades e para aliviar as angústias, não estou mais
vendo análises de especialistas que tentam prever quando e como isso vai acabar.
De qualquer forma, a palavra que melhor me
define atualmente é angústia. Fico muito angustiada à noite, naquele momento
que a cabeça anda sozinha sem obedecer comandos racionais. Refletindo sobre o
mundo, pensando nas pessoas, analisando a minha situação, criando hipóteses na
minha cabeça. As imagens das capitais europeias vazias, Pacaembú virando
hospital, os exames não feitos no Brasil, reportagens mostrando a realidade de
quem mal tem sabonete e as previsões do que vai acontecer nas próximas semanas.
O cérebro fica em alerta.
Entretanto, é
notado um esforço coletivo para não ceder à angústia: o brasileiro sente falta
dos esportes? Reprise da final da Copa do Mundo, parece que 2002 foi numa outra era. Feriado de
Páscoa em isolamento social? Andrea Bocelli no Duomo de Milão. Alguns sentiram
melancolia, outros ficaram com esperança e muitos se emocionaram sem entender
muito bem o porquê, é a arte cumprindo devidamente seu papel. Neste
mesmo dia, o Primeiro Ministro britânico fez um pronunciamento agradecendo
nominalmente enfermeiros estrangeiros que o acompanharam durante a internação,
isto é, um conservador dando uma dúzia de passos para trás.
O que
sinto é uma sociedade fragilizada em busca de medidas efetivas e utilizando
diferentes recursos para não deixar a peteca cair além do chão. Enquanto uns
dizem que vírus é mentira ou isolamento social não funciona, a realidade é
vivida por todos sendo delírio ou não. Uns serão mais atingidos que outros,
mas, aqui de dentro, parece que neste momento isso não importa, a esquisitice
está rondando nossos dias.

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