domingo, 12 de abril de 2020

Sobre fragilidades


Os dias têm sido esquisitos, muito esquisitos. Nós, pessoas dos anos 90, estamos virando os pais dos nossos pais. Decidindo quem vai ao mercado, perguntando se lavou a mão ou se não é melhor trocar de roupa após convívio social mínimo. Não se sabe quanto tempo isso irá durar, e quando acabar como será o mundo.


Há quem diga que o mundo será diferente para melhor, pessoas valorizando o que realmente importa, vendo o consumo de outra forma e fortalecendo as relações humanas. Outras pessoas dizem que será quase como um pós apocalipse: a crise econômica, a corrida para a recuperação com o auxílio da dobradinha neoliberal: deus-me-livre/salve-se quem puder.  Diante dessas incertas possibilidades e para aliviar as angústias, não estou mais vendo análises de especialistas que tentam prever quando e como isso vai acabar.


De qualquer forma, a palavra que melhor me define atualmente é angústia. Fico muito angustiada à noite, naquele momento que a cabeça anda sozinha sem obedecer comandos racionais. Refletindo sobre o mundo, pensando nas pessoas, analisando a minha situação, criando hipóteses na minha cabeça. As imagens das capitais europeias vazias, Pacaembú virando hospital, os exames não feitos no Brasil, reportagens mostrando a realidade de quem mal tem sabonete e as previsões do que vai acontecer nas próximas semanas. O cérebro fica em alerta.


       Entretanto, é notado um esforço coletivo para não ceder à angústia: o brasileiro sente falta dos esportes? Reprise da final da Copa do Mundo, parece que 2002 foi numa outra era. Feriado de Páscoa em isolamento social? Andrea Bocelli no Duomo de Milão. Alguns sentiram melancolia, outros ficaram com esperança e muitos se emocionaram sem entender muito bem o porquê, é a arte cumprindo devidamente seu papel.  Neste mesmo dia, o Primeiro Ministro britânico fez um pronunciamento agradecendo nominalmente enfermeiros estrangeiros que o acompanharam durante a internação, isto é, um conservador dando uma dúzia de passos para trás.


         O que sinto é uma sociedade fragilizada em busca de medidas efetivas e utilizando diferentes recursos para não deixar a peteca cair além do chão. Enquanto uns dizem que vírus é mentira ou isolamento social não funciona, a realidade é vivida por todos sendo delírio ou não. Uns serão mais atingidos que outros, mas, aqui de dentro, parece que neste momento isso não importa, a esquisitice está rondando nossos dias.





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