Acordar na zona sul, andar pelo Leblon pensando como é viver naquele bairro que apesar de ser carioca nem parece
brasileiro. Não por isso, vamos a caminho da Cinelândia, vamos ver a escadaria
de Selarón, vamos ver os detalhes da obra que estaria sempre em movimento, se não fosse a desgraça desavisada da vida.
Subir e depois descer: Santa Teresa. Será que é a presença
de amigos de Coimbra ou será que aquele bairro realmente cheira a vida
universitária? Por enquanto não vou saber responder, mas fico com a beleza da
simplicidade e do antigo. Casas ao invés de prédios. Botecos ao invés de
restaurantes. Cores ao invés do cinza. O bairro da Carmem Miranda.
Depois, a Lapa. Na Lapa tem neguinho mal encarado. Na Lapa
não é bom dar sopa, guardar a câmera, não ficar olhando muito, segurar a bolsa
perto do corpo.
Mas é claro, vi na Lapa o lugar boêmio e sujo dos sambas,
neguinho mal encarado não é nada, sabemos tão pouco das histórias que aconteceram ali. Lembrei do Madame Satã, negro e travesti. Ouvi uma espécie de
bloco de carnaval tocando Carcará, ao lado de barracas mal conservadas, que vendiam lanches e bebidas, e na frente dos Arcos. Atrás dos Arcos, Circo Voador. Me lembrei da música: cool e popular, cool e popular. Por
acaso na Lapa tem um muro onde podemos escrever nossos sonhos.
Comer depressa, vamos pegar um táxi, próxima parada é a
Estação Primeira de Mangueira. Para chegar lá, passamos pelo novo Maracanã,
iluminado com as cores rubo negras, vai ter jogo do Flamengo.
Comprar o bilhete tentando ignorar a molecada pedindo uma moedinha, por favor. Molecada não, criançada. Não era a mesma cidade, mas me lembrei de Jorge Amado e mentalmente escolhi o Antônio Balduíno daquele bando.
Dentro da quadra o pagode, depois o samba e a invasão da
comunidade. Pra mim era passeio, mas aquilo era a sério, vocês tratem de
decorar o samba enredo, tem ensaio no próximo sábado, nada de acompanhantes.
Meninas e senhoras vestindo suas melhores roupas fabricadas por elas, o prazer
de saber o valor.
O prazer de cantar e
dançar para algo que se tem muito respeito, acho que elas não sabem muito bem,
mas elas estão emocionadas assim porque é o samba que dá um tempo na vida
grosseira e canta sobre as qualidades do morro, das comunidades. Essa vida que
mesmo quem não sabe quer dar sua opinião, mesmo se for de dentro de quartos
refrescados por ares condicionados.
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