Na última sexta-feira, no finalzinho da tarde, quando o sol
está se pondo e o ar começa a ficar mais fresco, quase gelado, eu passava de
carro numa rua qualquer e vi uma senhora sentada no seu portão descascando uma
tangerina. Não é preciso de mais nada.
Depois de uma semana corrida e exaustiva, de muito trabalho
no trabalho e de trabalho em casa, tudo o que eu queria era me guardar na toca,
pausar a vida, não pensar em problemas. Esquecer do mundo e ser esquecida por
ele. No entanto, eu sabia que não seria assim, porque quando se trata de viver isso
é impossível, ainda bem. E apesar de toda a confusão que se instalara nos
meus dias, aquela senhora estava descascando uma tangerina, sentada no seu
portão, vendo o movimento da rua.
Veja bem, essa senhora conseguiu pausar a vida. De repente,
ela tenha problemas gravíssimos para resolver, sentou lá para descansar, ou
para pensar melhor. Vê-la foi para mim como a canção do Caetano “eu vi o menino
correndo/ eu vi o tempo”.
Eu poderia dizer: “que inveja, queria eu sentar no meu
portãozinho numa hora dessas”, porém a grande graça é que percebi que sim, eu
posso fazer o mesmo. O finalzinho de tarde e as tangerinas estão aí para todos.
O conflito é sempre mais interno do que no plano real, afinal que chatice é
essa de ficar se privando das vontades, das pausas, do sossego. Uma coisa é ter
prazos e deveres, outra coisa é se acostumar com o sentimento de urgência - um perigo e
um pecado com a vida.
Eu gosto demais desses momentos muito íntimos que nem sei se
alguém vai entender, mas que me levam a um sentimento de contemplação e por
alguns instantes de entendimento da vida. Depois disso, troquei a urgência e o
afobamento pelo sentimento de que bom que estou aqui e posso contribuir com o
bem-estar daqueles que sempre estão comigo. <3

